O discurso de sorites foi uma intervenção parlamentar proferida por Nabuco de Araújo no Senado do Império do Brasil em 17 de julho de 1868, famoso por sua crítica ao funcionamento, na prática, da democracia sob o regime que posteriormente se conheceria como “parlamentarismo às avessas”, no qual o governante acabava escolhendo os representantes do povo. O discurso foi preservado e difundido principalmente por seu filho, Joaquim Nabuco, na obra Um Estadista do Império. Naquele ano, houve uma profunda crise política quando o imperador demitiu o gabinete liberal do deputado Zacharias de Góis e Vasconcelos, convocando a minoria conservadora e entregando o governo ao visconde de Itabora. Em meio a disputa, Nabuco de Araújo sobe à tribuna e diz fazer um protesto, não contra a legalidade do ministério atual, mas sim contra sua legitimidade. Nabuco questiona se o sistema como está posto não é "uma farsa. Não é isto um verdadeiro absolutismo, no estado em que se acham as eleições no nosso país?" Ele então expõe, no trecho mais famoso, como vê a situação: "Vede este sorites fatal, este sorites que acaba com todo o sistema representativo: o Poder Moderador pode chamar quem quiser para organizar o ministério; esta pessoa faz a eleição, porque tem de fazê-la; esta eleição faz a maioria. Eis aí o sistema representativo de nosso país". O discurso não ficou conhecido somente por seu conteúdo, mas também pela forma: um sorites é um termo da lógica clássica (especialmente aristotélica), designando um argumento cumulativo em cadeia, de modo que o predicado do silogismo antecessor é sujeito do sucessor. Três décadas depois, Alberto Sales retomaria o discurso para descrever a prática do sistema representativo, agora sob a República, em outro sorites: "O presidente da República faz os governadores dos estados; os governadores fazem as eleições; e as eleições fazem o presidente da República". Em um aparte na década de 1950, o deputado Dantas Júnior relembrou o discurso do sorites para argumentar contra o parlamentarismo no Brasil. Em coluna, o jornalista Raul Pilla acusou-o de anacronismo, já que o discurso criticava a representação do povo dentro do sistema e não o parlamentarismo em si. Elio Gaspari, em janeiro de 1999, também utilizaria o discurso do sorites como base para criticar o discurso da segunda posse de Fernando Henrique Cardoso.
Referências

