Quando recebeu o diagnóstico de câncer de mama, em janeiro de 2025, a modelista Marcela Maciel, de 47 anos, sabia que teria uma batalha pela frente. Mas, naquele momento, uma preocupação ganhou força: o cabelo. Em agosto, aconteceria o casamento da filha, Gabriele, uma celebração planejada pela família havia três anos. Marcela queria estar ali como sempre imaginou: elegante, arrumada, com cabelo impecável. “Eu não pensava no tratamento. Eu pensava em não ter cabelo no casamento da minha filha”, lembra. A queda dos fios está entre os primeiros receios de muitas mulheres diante da quimioterapia. Para algumas, o cabelo é parte da identidade, da autoestima e da forma como se reconhecem no espelho. Por isso, diante da possibilidade de perdê-lo, elas buscam diferentes caminhos: raspar os fios antes que eles caiam; recorrer a lenços, bonés e acessórios; ou tentar preservar parte do cabelo com o resfriamento capilar, também chamado de crioterapia. Outra alternativa são as perucas, que podem ser feitas a partir de cabelos doados. Todas as opções, no fim, convergem para uma tentativa de manter a identidade em um momento vulnerável.Orientada pelo oncologista, Marcela Maciel tentou, durante a quimioterapia, o resfriamento capilar, técnica que utiliza uma touca refrigerada para diminuir a circulação sanguínea no couro cabeludo e, consequentemente, reduzir a quantidade do medicamento que chega aos folículos. Ela enfrentou o frio intenso das sessões acreditando que conseguiria preservar parte dos fios. No início, a esperança parecia se confirmar: o cabelo não caiu no período previsto pelo médico. Mas os fios cacheados trouxeram uma particularidade. Em vez de simplesmente se desprenderem, os cabelos que caíam se entrelaçavam. Ao lavar e tentar desembaraçá-los, Marcela percebeu grandes falhas. Veio, então, uma decisão difícil: raspar a cabeça. O momento aconteceu em família, na casa da mãe, entre lágrimas. Aos poucos, porém, Marcela encontrou novas formas de se enxergar. Vieram os lenços, os bonés e os acessórios comprados pelas filhas e pelo marido. A modelista até se acostumou a estar careca, mas ainda faltava uma coisa: uma peruca que a fizesse chegar ao casamento da filha sentindo-se bonita.Foi então que conheceu a Cabelegria, ONG que recebe doações de cabelos e confecciona perucas para pessoas que perderam os fios. Ao colocar a peruca, a reação foi imediata: “Eu já joguei ela de lado e falei: ‘Ah, eu vou arrasar’”. E foi exatamente o que aconteceu. No casamento, Marcela estava maquiada, penteada e com a peruca preparada para a ocasião.A experiência também mudou a forma como Marcela vê quem doa cabelo. Depois de receber a peruca, ela confia que os fios sempre vão chegar para aqueles que precisam. “Às vezes, as pessoas ficam com medo de doar por não saber onde os fios vão parar. Eu usei e posso garantir que essa contribuição é verdadeira.” Para ela, cada mecha pode ajudar uma mulher a se reconhecer novamente diante do espelho. Durante o tratamento, os grupos de apoio também ajudaram Marcela a compartilhar medos e experiências, tornando o caminho menos solitário. Hoje, ela voltou ao trabalho, segue em acompanhamento médico e vê os fios crescerem novamente. Aprendeu que, durante o câncer, cuidar da aparência também pode ser uma forma de cuidar de si.A peruca que ajudou Marcela a chegar ao casamento como ela desejava começou muito antes daquele dia, nas mãos de alguém que decidiu transformar um gesto simples em esperança para outra mulher. É essa ponte entre quem doa e quem recebe que a ONG Cabelegria constrói desde 2013. Os fios arrecadados ganham nova vida pelas mãos das costureiras, que confeccionam as perucas destinadas a mulheres que enfrentam o câncer ou outras condições que provocam a queda dos cabelos.A organização nasceu quando a designer Mariana Robrahn decidiu doar o próprio cabelo e criou uma campanha para arrecadar fios. A iniciativa ganhou proporções maiores do que o esperado: em menos de um mês, mais de mil pessoas já haviam feito doações.A primeira peruca ficou pronta ainda naquele ano. O projeto, inicialmente voltado a crianças, passou a atender mulheres em 2015 e, desde então, já doou mais de 18 mil perucas, segundo Mariana. Hoje, além dos bancos físicos, a organização conta com um caminhão adaptado que leva as peças a hospitais. A peruca pode ser solicitada gratuitamente por pessoas de qualquer renda e região do país, mediante comprovação da doença.A fundadora ressalta que o impacto nas pacientes vai além da queda dos fios: há crianças e adolescentes que deixam de ir à escola por medo do bullying e mulheres que evitam sair de casa para não serem vistas sem cabelo. Para ajudar a mudar essa realidade, a organização envia cerca de 150 perucas por mês para diferentes estados. Uma única peruca costuma reunir cabelos de três a seis pessoas, dependendo do tipo e da densidade dos fios. Segundo Mariana, a ONG tem mais de duas toneladas de fios em estoque, mas precisa de recursos para transformá-los em perucas e remunerar as profissionais que fazem esse trabalho.O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima aproximadamente 262 mil novos casos de câncer por ano em mulheres no Brasil, excluindo os tumores de pele não melanoma.Nem todo tratamento contra a doença provoca alopecia. O efeito depende do medicamento utilizado e da forma como ele age no organismo. Segundo Andrea Borges, oncologista especialista em tumores femininos e doutoranda em mastologia, a quimioterapia atinge principalmente as células que se multiplicam rapidamente. Como os fios também estão em constante crescimento, alguns medicamentos podem afetar os folículos capilares. “Alguns quimioterápicos causam uma alopecia mais intensa, outros menos. E isso não significa que o medicamento que faz cair o cabelo seja mais agressivo. É uma característica de cada medicação”, explica. A queda, quando ocorre, costuma começar entre 15 e 21 dias após o início do tratamento.A crioterapia é um procedimento que ajuda a conter a queda de cabelo. Ele, no entanto, não está disponível na rede pública de saúde. Há um pedido para incorporar o sistema de resfriamento capilar ao SUS por meio da Conitec, órgão do Ministério da Saúde responsável por avaliar a inclusão de novas tecnologias na rede. O pedido recebeu três votos favoráveis e 13 contrários na primeira análise e agora segue para consulta pública, etapa aberta à participação de qualquer pessoa, que pode enviar sua opinião e contribuição antes da nova votação. Segundo a empresa, a incorporação teria um impacto orçamentário estimado em R$ 44 milhões ao longo de cinco anos. Para a oncologista Andrea Borges, a crioterapia não deve ser tratada como um procedimento estético, mas como uma forma de reduzir o sofrimento causado pelo tratamento, e, por esse motivo, deveria ser oferecida no SUS. “Cada paciente tem que ter o direito de escolher se quer ficar careca ou não”, afirma. Para ela, assim como o SUS oferece medicamentos para amenizar outros efeitos da quimioterapia, deveria garantir também o acesso à técnica. “Da mesma forma que a gente dá um antiemético para o paciente não ter enjoo, por que não oferecer uma máquina ou uma touca que pode ajudar a diminuir a queda de cabelo?”Segundo Borges, a crioterapia é indicada principalmente para alguns tipos de quimioterapia com maior risco de queda e, em geral, para pacientes com tumores em estágio inicial. Nos tumores hematológicos, ainda não há comprovação suficiente sobre sua segurança. Já nos casos de doença metastática, a indicação deve ser avaliada individualmente. O número de sessões de resfriamento capilar é igual ao número de sessões de quimioterapia prescritas pelo oncologista.Por isso, a recomendação é conversar com o oncologista antes de iniciar o tratamento e verificar se o resfriamento capilar é uma opção. A crioterapia atua sobre os folículos capilares e não substitui nem interfere na ação da quimioterapia contra o câncer. Antes mesmo de receber o diagnóstico de câncer, a engenheira ambiental Nayra Kim, então com 25 anos, já enfrentava uma das partes mais difíceis da doença: não saber o que estava acontecendo. Foram meses entre exames, consultas e hipóteses, sem uma resposta definitiva. O inchaço no pescoço, inicialmente tratado como um linfonodo inflamado, cresceu até o ponto de mudar sua rotina.Em uma manhã de céu azul, Nayra saiu de um ultrassom com o coração acelerado. Bastou a expressão do médico para que o medo ocupasse o lugar da esperança. Antes de voltar para casa, fez uma parada inesperada: entrou sozinha em um restaurante japonês que ainda estava abrindo e que sonhava conhecer havia anos. Enquanto os pratos chegavam à mesa, as lágrimas caíam sem cerimônia. “Eu já sabia que alguma coisa estava errada”, lembra.O diagnóstico definitivo, no entanto, trouxe o sentimento oposto ao que imaginava. Um dia antes de seu aniversário, veio a confirmação do linfoma de Hodgkin, tipo de câncer que afeta o sistema linfático — a rede de órgãos, ínguas e vasos que ajudam a defender o corpo contra infecções. “Parecia que tudo estava nublado e, de repente, clareou. Agora eu sabia qual era o caminho e o que precisava fazer: começar o tratamento e me curar.”A notícia trouxe outra preocupação. O tratamento incluía quimioterapia e, com ela, a possibilidade de perder o cabelo — que fazia parte da própria identidade de Nayra. Na época, seus fios chegavam à cintura. “Minha autoestima dependia muito do meu cabelo. Se ele não estava bonito, eu me sentia feia”, conta.Antes da primeira sessão, ela cortou o cabelo pela primeira vez desde a infância. O chanel foi uma forma de se preparar para uma possível queda. Esse também foi o momento em que ela conheceu a touca de resfriamento capilar, disponível na clínica e coberta por seu plano de saúde. Os primeiros minutos das sessões de crioterapia foram os mais difíceis para Nayra. A sensação, conta, lembrava a dor de cabeça causada por tomar algo muito gelado. Depois, vinha um frio intenso, que durava cerca de cinco horas. Cobertores, roupas quentes e até um pijama dado pelo namorado ajudavam a enfrentar as sessões, mesmo no calor de Indaiatuba (SP), onde passou a morar.O esforço, para ela, valeu a pena. O cabelo afinou, perdeu volume e caiu aos poucos, mas não desapareceu. Manter os fios ajudou Nayra a preservar, em meio ao tratamento, um pouco da vida que conhecia antes do câncer. “Era como se nem tudo tivesse mudado. Tinha momentos em que eu olhava no espelho e via a mesma pessoa de antes. Conseguia esquecer, por alguns instantes, que tinha câncer.”Ao longo dos 12 meses de tratamento, os desafios foram muito além do cabelo. Náuseas, fadiga, alterações no paladar e infecções fizeram parte da rotina. Ainda assim, Nayra continuou trabalhando. Para ela, manter a rotina ajudou a não deixar que a doença ocupasse todos os espaços da vida. Um ano depois de terminar a quimioterapia, agora com 28 anos, ela olha para trás sem a expectativa de simplesmente voltar a ser quem era antes do câncer. A doença mudou sua relação com o tempo, ensinou a desacelerar e, principalmente, a valorizar o presente. “Passei muito tempo querendo que a Nayra de antes voltasse. Depois, entendi que ela não existe mais. Mas eu continuo sendo eu.”É essa certeza que ela leva para quem está começando o tratamento. Nayra não promete dias fáceis nem finais perfeitos. Ela recomenda, antes, encontrar pequenas possibilidades de escolha e de cuidado no meio do caminho — seja preservando os cabelos, experimentando uma peruca diferente ou simplesmente encontrando motivos para continuar. “Se o cabelo ficar, ótimo. Você vai esquecer da doença às vezes. Se cair, pode ser uma oportunidade de experimentar perucas coloridas e cabelos diferentes do seu.”No meio de um tratamento que tantas vezes parece tirar o controle sobre o próprio corpo, encontrar uma forma de se reconhecer pode ser também uma maneira de recuperar a si mesma. Para Marcela, foi a peruca que a ajudou a viver o casamento da filha como havia imaginado. Para Nayra, foram os fios que permaneceram — e, com eles, a sensação de que nem tudo havia mudado. Para tantas outras mulheres, pode ser um lenço, um novo corte, ou a escolha de simplesmente deixar o cabelo cair. Porque, durante o câncer, o espelho também pode contar outras histórias. Histórias de medo, de mudanças, mas também de cuidado, afeto e descobertas. Um cabelo doado pode virar uma peruca. Uma touca de resfriamento pode preservar alguns fios. Uma rede de apoio pode tornar o caminho menos solitário.Os cabelos de Marcela voltaram a crescer. Nayra terminou a quimioterapia e aprendeu a olhar para a própria história de outro jeito. Nenhuma das duas voltou a ser exatamente quem era antes — e talvez não precisasse. E, entre fios que caem, fios que permanecem e outros que começam a nascer, fica a possibilidade de continuar se reconhecendo no espelho — mesmo quando a vida muda de forma. Afinal, como diz Nayra, “nem sempre dá para encontrar o lado bom, mas continuar procurando por ele é o que faz a gente seguir”.

Entre a quimioterapia e o espelho: como mulheres que tratam o câncer lidam com a queda de cabelo e encontram formas de se reconhecer
Entre a quimioterapia e o espelho: como mulheres que tratam o câncer lidam com a queda de cabelo e encontram formas de se reconhecer · Imagem: Source: www.r7.com
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Marcela perdeu o cabelo antes do casamento da filha, mas encontrou uma forma de se sentir bem. Arquivo pessoal/Marcela Maciel
Marcela perdeu o cabelo antes do casamento da filha, mas encontrou uma forma de se sentir bem. Arquivo pessoal/Marcela Maciel · Imagem: Marcela perdeu o cabelo antes do casamento da filha, mas encontrou uma forma de se sentir bem. Arquivo pessoal/Marcela Maciel
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Passo a passo doação de cabelo Arte R7
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Perucas doadas pela Cabelegria Arquivo pessoal/Cabelegria
Perucas doadas pela Cabelegria Arquivo pessoal/Cabelegria · Imagem: Perucas doadas pela Cabelegria Arquivo pessoal/Cabelegria
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Técnica usada para evitar a queda de cabelo causada pela quimioterapia Arte R7
Técnica usada para evitar a queda de cabelo causada pela quimioterapia Arte R7 · Imagem: Técnica usada para evitar a queda de cabelo causada pela quimioterapia Arte R7
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Nayra sempre amou o cabelo longo. Com a crioterapia, conseguiu preservar os fios durante o tratamento. Arquivo pessoal/Nayra Kim
Nayra sempre amou o cabelo longo. Com a crioterapia, conseguiu preservar os fios durante o tratamento. Arquivo pessoal/Nayra Kim · Imagem: Nayra sempre amou o cabelo longo. Com a crioterapia, conseguiu preservar os fios durante o tratamento. Arquivo pessoal/Nayra Kim
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