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Inteligência artificial: a burrice é inevitável?
Inteligência artificial: a burrice é inevitável? · Imagem: Source: olhardigital.com.br

Talvez o maior risco da IA não seja ela pensar como nós, mas nós pararmos de pensar sem ela.

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Acho que não é novidade para ninguém que toda grande tecnologia traz junto uma discussão sobre aquilo que podemos perder quando ela começa a fazer coisas por nós.

Imagino que, quando os carros se popularizaram, alguém tenha pensado que nossas pernas iriam atrofiar.

Quando eu era criança, já existia uma discussão parecida. Ganhei meu primeiro videogame, um Atari, e lembro das conversas sobre o quanto jogar poderia atrapalhar os estudos ou prejudicar aquela geração.

Na escola, eu mesmo pensava: para que aprender a fazer conta se existe uma calculadora?

Sobrevivemos às duas coisas.

Mas agora a pergunta ganhou outra dimensão.

Para que aprender a programar se a IA programa?

Para que aprender design se ela desenha?

Para que aprender Excel se ela monta a planilha?

E, levando isso ao limite, será que em algum momento alguém vai perguntar: para que fazer uma faculdade se a IA faz isso para mim?

Pode parecer absurdo.

Hoje.

Mas, se começarmos a perguntar para que aprender, para que estudar e para que desenvolver uma habilidade se uma máquina consegue fazer aquilo por nós, talvez a discussão deixe de ser apenas sobre eficiência.

E passe a ser sobre inteligência.

Ou, provocando um pouco mais: será que estamos criando ferramentas cada vez mais inteligentes enquanto criamos condições para ficarmos um pouco mais burros?

De conversar para fazer

Estive recentemente em um encontro da OpenAI e uma cena ficou na minha cabeça.

Perguntaram quantas pessoas ali já tinham usado IA para efetivamente buildar alguma coisa.

Não estou falando de perguntar algo em um chat.

Estou falando de criar uma automação, um agente, uma aplicação, um fluxo.

Pouquíssimas mãos se levantaram.

Aquilo me chamou atenção.

Existe uma multidão usando inteligência artificial, mas ainda há uma diferença enorme entre usar IA para conversar e usar IA para construir.

Eu mesmo passei por isso.

Quando essa onda começou, achei que esse negócio de chat não iria dar em nada.

Minha percepção mudou completamente quando comecei a buildar com IA.

Foi quando entendi que aquilo não era apenas uma nova maneira de buscar informação.

Era uma nova maneira de fazer coisas.

E agora estamos entrando em uma fase ainda mais radical.

Ferramentas como Codex, Cowork e Claude Code começam a atravessar a fronteira entre sugerir e executar.

Você não pergunta mais apenas como fazer.

Você pede para fazer.

Responder um e-mail. Criar uma aplicação. Mexer em uma planilha. Trabalhar uma imagem. Pesquisar. Organizar arquivos. Operar softwares.

A IA começa, literalmente, a colocar a mão no mouse.

E foi vendo aquilo acontecer na minha frente que me veio uma sensação estranha.

Ao mesmo tempo em que eu estava impressionado com a capacidade da ferramenta, comecei a pensar no que acontece quando deixamos de fazer aquilo que antes precisávamos aprender a fazer.

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Foi aí que não teve como não lembrar de Matrix.

Neo recebe uma carga de conhecimento, abre os olhos e diz:

“Eu sei kung fu.”

Por alguns segundos parece que estamos chegando lá.

Só que existe uma diferença importante.

Neo aprendeu kung fu.

Nós estamos chamando alguém para lutar no nosso lugar.

E aí a pergunta voltou.

Será que isso não vai nos deixar mais burros?

O problema é que aprendemos fazendo

Quanto mais eu pensava naquela demonstração, mais uma coisa ficava evidente para mim.

Grande parte do que sabemos não aprendemos lendo um manual.

Aprendemos fazendo.

Errando.

Tentando de novo.

Tomando uma decisão ruim.

Refazendo.

Gastando tempo.

Acertando depois de errar algumas vezes.

Quem programa aprende quebrando código.

Quem empreende aprende colocando uma ideia na rua e descobrindo que ninguém queria aquilo.

Quem lidera aprende tomando decisões que nem sempre dão certo.

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A experiência ensina porque ela cobra. E o erro ensina porque ele deixa marca.

Esse processo é desconfortável.

Mas talvez seja justamente esse desconforto que construa boa parte do nosso repertório.

Quando retiramos todo esse caminho e ficamos apenas com o resultado pronto, ganhamos eficiência.

Só que talvez percamos alguma coisa junto.

Essa é uma das grandes contradições dessa nova geração de inteligência artificial.

Ela reduz brutalmente a distância entre querer alguma coisa e ter alguma coisa pronta.

Isso é extraordinário.

Mas essa distância era justamente onde muita gente aprendia.

Então vamos ficar mais burros?

Acho que não é tão simples.

Seria igualmente absurdo defender que devemos continuar fazendo tudo manualmente apenas para exercitar o cérebro.

Não pretendo abandonar a calculadora para preservar minha capacidade de multiplicação.

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Também não quero gastar três horas fazendo algo que uma IA pode resolver em três minutos.

A questão, para mim, passa a ser outra:

O que podemos terceirizar sem terceirizar nossa capacidade de pensar?

Ou talvez exista uma pergunta ainda mais simples:

O que não podemos deixar de fazer sem deixar de aprender?

Porque estamos entrando em uma fase em que a execução vai ficar cada vez mais barata.

Programar, desenhar, escrever, pesquisar, analisar, organizar, produzir.

Grande parte disso será feita por máquinas.

E talvez justamente por isso o nosso papel mude.

Menos executar.

Mais perguntar.

Mais questionar.

Mais escolher.

Mais entender se aquilo que foi feito faz sentido.

Mais decidir o que merece ser feito.

A IA pode escrever o código.

Mas alguém ainda precisa decidir qual problema vale a pena resolver.

Pode construir a apresentação.

Mas alguém precisa saber qual história contar.

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Pode analisar milhares de informações.

Mas alguém ainda precisa saber o que perguntar.

Talvez a inteligência artificial não nos torne inevitavelmente mais burros.

Mas ela certamente torna muito mais fácil evitar justamente aquilo que sempre nos ensinou mais: fazer, errar e tentar de novo.

E talvez esse seja o verdadeiro risco.

Não o de a máquina aprender a pensar como nós.

Mas o de nós nos acostumarmos a não precisar pensar tanto.

Por isso, quanto mais as máquinas aprenderem a executar por nós, mais nós vamos precisar aprender a pensar.

Aviso importante

Eduardo Endo é colunista do nosso site e as opiniões do artigo não representam, necessariamente, a opinião do Olhar Digital.

Eduardo Endo

Eduardo Endo, pesquisador, professor e especialista em IA

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Tags: Inteligência Artificial