A exigência do jejum para a realização de exames diagnósticos e procedimentos cirúrgicos responde a critérios fisiológicos distintos, mas ambos voltados à segurança do paciente e à precisão técnica. Enquanto na anestesia o objetivo primordial é evitar o refluxo de alimentos para o sistema respiratório, nos testes laboratoriais e de imagem a restrição alimentar busca garantir amostras sem interferências químicas e órgãos adequadamente visíveis para análise.Durante procedimentos que exigem anestesia geral ou sedação profunda, o corpo perde reflexos vitais de defesa, como a tosse e o fechamento automático das vias aéreas. Nesses cenários, a presença de resíduos no estômago representa um elevado risco de broncoaspiração — quando o conteúdo gástrico retorna pela garganta e entra nos pulmões.Como explica o médico anestesiologista Rodolfo Araújo, coordenador do Serviço de Anestesiologia do Hospital Mater Dei Goiânia, essa é a maior complicação evitada pelo protocolo.“Broncoaspiração é a entrada de conteúdo gástrico (alimento, líquido ou secreções) para dentro da traqueia e dos pulmões, em vez de seguir o caminho normal pelo esôfago. Em condições normais, reflexos como tosse, deglutição e fechamento da glote protegem as vias aéreas. A anestesia geral deprime esses reflexos de proteção e quanto mais profundo o nível de sedação maior essa perda de proteção”, alerta. Leia também Vida & EstiloJejum glicêmico: a nova técnica para controlar o açúcar no sangue Claudia MeirelesNutricionista diz se beber café em jejum oferece riscos à saúde Distrito FederalPaciente fica das 5h às 19h em jejum à espera de cirurgia no HBDF NutriçãoBeber água em jejum: o que o hábito pode fazer com o seu corpo Araújo ressalta que, embora seja uma complicação grave que pode levar à pneumonia aspirativa ou obstrução respiratória, o evento é raro devido à eficiência dos protocolos modernos. A evolução dessas diretrizes, como os protocolos de recuperação acelerada (ERAS), flexibilizou os tempos de jejum prolongados da era passada.Hoje, o tempo de espera varia conforme o tipo de substância ingerida, já que líquidos claros e alimentos sólidos possuem velocidades de esvaziamento gástrico totalmente diferentes.“Líquidos claros, como água, chá e café sem leite, saem do estômago muito mais rápido do que alimentos sólidos ou líquidos com gordura e proteína. Por isso, as diretrizes atuais permitem a ingestão de líquidos claros até 2 horas antes da cirurgia, enquanto alimentos sólidos exigem um jejum mais longo, geralmente de 6 a 8 horas”, destaca.Em cirurgias de emergência, nas quais não há tempo para aguardar o esvaziamento do estômago, os médicos utilizam a chamada indução em sequência rápida para intubar o paciente de forma coordenada e proteger a via aérea no menor tempo possível.Em exames, o jejum garante a precisão analíticaNo âmbito dos exames complementares, as justificativas para a restrição alimentar são analíticas. Segundo a médica radiologista Priscilla Tashiro, em alguns exames de sangue, o jejum permite medir componentes em uma condição padronizada, sem a influência recente da alimentação. “Após as refeições, os níveis de glicose e triglicerídeos sobem temporariamente, podendo alterar o aspecto do sangue”, destaca.A presença excessiva de gordura no soro sanguíneo cria uma condição chamada lipemia, que torna a amostra turva. “Essa turbidez pode interferir, sobretudo, em métodos que medem a passagem de luz pela amostra e produzir resultados imprecisos”, pontua a radiologista. Apesar disso, a medicina diagnóstica atual já dispensou a restrição para diversos testes.O perfil lipídico, por exemplo, não exige mais as antigas 12 horas de jejum na maioria dos casos, embora exames como a dosagem de glicemia ainda necessitem de ao menos oito horas de privação de alimentos.A regra também se aplica a exames de imagem, como a ultrassonografia abdominal, na qual a digestão pode inviabilizar a visualização de órgãos essenciais.Conforme esclarece Tashiro, no ultrassom abdominal, a alimentação pode contrair a vesícula biliar e aumentar o conteúdo ou os gases no aparelho digestivo, dificultando a avaliação de algumas estruturas. “Nesses casos, pelo menos quatro horas de jejum costumam ser necessárias para permitir a distensão adequada da vesícula e garantir um laudo preciso”, conclui.







