A jornalista atualmente volta seu olhar para as artes visuais e se empenha em mostrar os talentos nacionais para o mundo

Imagem: Vans Bumbeers / Velvet

- Lucas Vasconcellos

Compartilhar

28 set 2026 - 04h58

(atualizado às 08h40)

É impossível pensar em moda nacional e em coberturas de semanas de moda para veículos brasileiros e não associar ao nome de Lilian Pacce. Afinal, quando o tema ainda ocupava pouco espaço nos noticiários, ela ajudou a torná-lo relevante, mostrando que podia ser muito mais do que apenas algo lido superficialmente.

A relação de Lilian com a moda começou na década de 1980, no jornal Folha de S.Paulo, por acaso. Ela cobria arte e, por pedidos da chefia, começou também a falar sobre looks e passarelas. “Eu aprendi fazendo e fui totalmente autodidata, nem existia a faculdade de Moda no Brasil. Comecei a entrevistar as pessoas, a ler… nossas fontes de informação eram livros, revistas brasileiras e importadas, que esperávamos chegar às bancas, com dois ou três meses de atraso. Se alguém ia viajar e trazia a do mês, eu comemorava. Era muito diferente a relação com a informação, as coisas tinham maior durabilidade”, conta.

Quando o caderno Ilustrada, em que trabalhava, passou por uma reformulação, Pacce foi questionada por seu então editor sobre qual caminho enxergava para o jornal em relação à moda. A ideia era expandir a seção que entrava apenas aos domingos e colocá-la como parte da cultura diária. Foi então que sugeriu a oportunidade de cobertura dos principais desfiles do eixo Paris-Milão-Londres-Nova York, assim como era feito com os eventos de arte e cinema. “Tiramos a moda desse preconceito que era algo feminino e mostramos esse aspecto sociocomportamental. É um jargão, mas a moda é reflexo do tempo. Você vê fotos de determinada época e entende pela roupa o que estava acontecendo ali”, ela conta.

Lilian Pacce
Foto: Vans Bumbeers / Velvet
Nesse processo, Lilian se empenhou para não tratar o assunto de maneira arrogante. “Eu sempre achei a maneira esnobe de agir no mundo fashion muito ultrapassada e a gente não ganhava nada se portando assim. Eu sempre tive essa premissa de ser o mais amigável possível com o leitor e telespectador”, reflete.
Além das páginas dos principais jornais e revistas, Lilian também foi uma das precursoras em levar a moda para a TV. Entre vários projetos, comandou por 18 anos o GNT Fashion, no canal GNT, e lançou livros como “O Biquíni Made in Brazil” (ed. ArteEnsaio), “Pelo mundo da moda: Criadores, grifes e modelos” (ed. Senac), “Ecobags: Moda e meio ambiente” (ed. Senac) e “Herchcovitch; Alexandre” (ed. Cosac & Naify). Também lecionou em faculdades de prestígio como FGV, FAAP, Anhembi Morumbi e Senac.
Vejo esses closets de 200 metros quadrados e acho indecente porque a pessoa não tem nem tempo de vida para usar tudo aquilo. Acho que essa coisa de ter cada vez mais é insegurança.
O AMANHÃ
O olhar para o futuro permitiu à jornalista enxergar a importância da sustentabilidade na moda. Em 2008, ela foi pioneira ao trazer o tema para seu site e criar a área Recicle-se. “Fui muito impactada pelo documentário do Al Gore ‘Uma Verdade Inconveniente’, que tinha sido lançado em 2006. Entendi que não existe moda do futuro que não passe por questões como meio ambiente e sustentabilidade. Na época, o mercado ficou meio em choque, sabe? Entendiam como contraditório”, relembra o período em que ainda era raro que criadores se voltassem para o tema.
Embora a sustentabilidade tenha se popularizado com os anos e existam mais iniciativas, Pacce reconhece que o mercado ainda precisa adotar mais práticas regenerativas, criando biomateriais inovadores para que, com o tempo, possam substituir outros populares, como o poliéster.
A inquietação com o amanhã fez com que, há alguns anos, ela se mudasse para Londres, onde fez mestrado na University of the Arts London, em 2023, e encabeçou o “Brazil: Creating Fashion for Tomorrow” (BCFT), projeto que acontece anualmente durante a London Fashion Week e tem como missão promover exposições e debates que destacam a criatividade, a inovação e as práticas regenerativas de designers, pesquisadores e artesãos brasileiros, guiados por valores socioambientais.
De volta ao Brasil desde o início do ano, ela mora com o marido, o jornalista Leão Serva, com quem é casada há 40 anos e tem três filhos.
No evento London Climate Action Week 2026, com Cameron Saul, Renata Schmulevich e Samela Sateré Mawé
Foto: Divulgação / Velvet
Em 2025, o BCFT foi realizado durante a Semana do Clima, em Londres. “Foi uma oportunidade maravilhosa porque os próprios organizadores viram que seria muito importante a moda ganhar protagonismo também na discussão da crise climática. A exposição tem um tripé que é moda, inovação e sustentabilidade. A gente leva novos materiais, alguns que ainda estão sendo desenvolvidos e que de repente alguém vê e investe para produzir em grande escala”, anima-se. A pesquisa do que será abordado na BCFT leva meses. Para 2026, o tema escolhido foi a caatinga. “Pouco sabemos sobre as regiões desse bioma, que tendem a ser muito sustentáveis porque, como é uma área de recursos escassos, eles sabem aproveitar tudo”, ela diz. O tema, aliás esteve na exposição “Caatinga: Stitching Resilience”, durante a London Climate Action Week, em junho. É dela também a curadoria da exposição imersiva “Natureza Tecida — Somos Um Único Fio”, de Sandra Anselmi, que pode ser vista até o fim agosto no Mata Lab.
A moda é um reflexo da sociedade, do indivíduo, da personalidade, mas não está no valor monetário. Está nas escolhas que fazemos.
BRASIL COM S
Desde quando começou a frequentar os principais circuitos de moda pelo mundo, Lilian tem o hábito de se vestir com marcas brasileiras nas coberturas. Na sua vida cotidiana também pouco usa grifes internacionais. E, como conta, as pessoas sempre se interessavam pelo que ela vestia. Hoje, com o Brasil em destaque em outros espaços, como a cerimônia do Oscar, ela se orgulha ao ver conterrâneos usando peças nacionais. “A gente tem talentos aqui. Então, quando você está representando seu país, por que não alavancar outras áreas correlatas ao que você está promovendo?”, questiona.
► Confira outras entrevistas especiais da revista Velvet
A missão é levada a sério tanto na Inglaterra quanto no Brasil, para onde vem com certa frequência. “Na minha pesquisa das artes visuais, estou muito focada em projetos feitos por mulheres e técnicas que antes não eram consideradas arte, como o bordado”. Os próximos passos, como o caminho que tem traçado, são promissores. O “Brazil: Creating Fashion for Tomorrow” logo estará nos calendários de outros países. As exposições, para ela, são como uma plataforma de conexão com o público, despertam as pessoas para uma inquietação — seja esse um sentimento bom ou ruim — que mexe com elas. Fomentar a transformação é um projeto do qual Lilian Pacce entende faz tempo.
Fonte: Velvet Conteúdos da revista Velvet
TAGS
Velvet Entretê

