Mirelle Pinheiro

Batizada de Operação Escola de Papel, a operação apura esquema de direcionamento de contratações, superfaturamento e desvio de verbas

Letícia Guedes
01/10/2026 08:03, atualizado 01/10/2026 08:11
Divulgação/MPRJ
A Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro (PCERJ) e o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) deflagraram, nesta quinta-feira (1º/10), uma operação no âmbito da investigação que analisa R$ 1,69 bilhão em contratos de obras em escolas públicas do estado. A Justiça determinou o bloqueio de R$ 19 milhões.
Entre os alvos estão a ex-secretária de Estado de Educação Roberta Barreto de Oliveira; seu genro, Yurie Lopes Fonseca Ormonde André; o ex-subsecretário de Gestão Administrativa David de Andrade Marinho Filho; e o empresário Fabio Martins Pereira.
Batizada de Operação Escola de Papel, a ação policial apura um esquema de direcionamento de contratações, superfaturamento e desvio de recursos destinados a obras em escolas públicas durante a gestão de Roberta.
Nesta quinta-feira (1º), são cumpridos 19 mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro, Cabo Frio, Arraial do Cabo e Niterói. Também foi solicitada a indisponibilidade de bens até o limite de R$ 19,79 milhões por investigado.
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O esquema
A investigação começou a partir da análise de contratos e avançou com o cruzamento de dados financeiros e patrimoniais. Os policiais identificaram indícios de que um procedimento criado para agilizar pequenos reparos e intervenções emergenciais teria sido utilizado para viabilizar obras de grande porte sem licitação.
As apurações apontam vínculos entre empresas que se apresentavam como concorrentes, propostas previamente ajustadas e falhas na fiscalização da execução dos serviços.
Segundo a PCERJ, uma das empresas investigadas recebeu R$ 11,79 milhões em recursos públicos relacionados aos contratos analisados. Desse total, foram identificados R$ 9,78 milhões em saques em espécie.
A investigação financeira levou a Coordenadoria de Investigação de Agentes com Foro (CIAF) a apreender, em janeiro deste ano, R$ 500 mil que haviam acabado de ser sacados pelo administrador da empresa em uma agência bancária de Duque de Caxias. A abordagem ocorreu após informação de inteligência financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
Segundo os elementos reunidos pela Polícia Civil, um empresário teria organizado propostas, controlado a conta utilizada para receber os pagamentos e participado da retirada dos valores em espécie. A análise também identificou transferências entre empresas e indícios de distribuição de recursos a pessoas ligadas a servidores.
O destino dos valores
Em depoimento, o administrador da empresa abordado com o dinheiro afirmou que, dos aproximadamente R$ 6 milhões recebidos para cerca de 15 obras, apenas R$ 2 milhões foram destinados à execução dos serviços. Segundo ele, os outros R$ 4 milhões ficaram com o intermediário que organizava as contratações e controlava a movimentação da conta bancária. A análise dos processos de contratação e das informações financeiras identificou que uma das empresas recebeu aproximadamente R$ 19,8 milhões em recursos públicos somente em 2025. Também foram identificados R$ 8,93 milhões em saques em espécie.
O trabalho investigativo apontou ainda possível conversão dos recursos em patrimônio particular. Entre os bens identificados estão uma casa em Cabo Frio e um imóvel avaliado em R$ 2 milhões, em Camboinhas, Niterói. O levantamento patrimonial aponta, ainda, patrimônio estimado em R$ 32,22 milhões e empresas proprietárias de 60 veículos, avaliados em aproximadamente R$ 15,63 milhões, relacionados a um dos investigados.
A Polícia Civil apura se o mecanismo foi utilizado em outras contratações. Dados encaminhados à investigação apontam R$ 1,69 bilhão em obras contratadas por procedimentos simplificados e submetidas à auditoria. Esse valor representa o universo de contratos sob análise e não corresponde ao montante de eventual desvio.
A investigação continua para identificar o destino dos recursos, outros possíveis beneficiários e individualizar as responsabilidades.


