António Xavier de Lima (Quinta do Anjo, 1926 – 2 de fevereiro de 2009) foi um empresário português da construção civil, do imobiliário e da actividade fundiária, associado à urbanização da Margem Sul do Tejo durante as décadas de 1970 e 1980. A sua empresa homónima foi objecto de intervenção estatal após a Revolução de 25 de Abril de 1974, devido a irregularidades urbanísticas e fundiárias apontadas pelo Governo português. Para além da actividade empresarial, fundou a Coudelaria Xavier Lima, dedicada à criação de cavalos lusitanos, tendo sido ainda presidente do Vitória Futebol Clube em 1973 e 1974.

Actividade empresarial Xavier de Lima desenvolveu actividade sobretudo na área da construção civil, compra e venda de terrenos e promoção imobiliária. A sua actuação tornou-se particularmente visível num período de forte crescimento demográfico e habitacional da Margem Sul do Tejo, impulsionado pela industrialização da região e pela procura de habitação acessível nos concelhos próximos de Lisboa. Em 1975, o Governo português descreveu a empresa António Xavier de Lima como uma das expressões mais significativas dos problemas urbanísticos e fundiários existentes na península de Setúbal antes e depois do 25 de Abril. A resolução do Conselho de Ministros de 17 de junho de 1975 afirmou que a actividade da empresa se dirigia essencialmente à especulação imobiliária e que dela teria resultado o alastramento da construção e do loteamento clandestinos, sobretudo na área da península de Setúbal. A mesma resolução referiu que, na sequência de uma comissão de inquérito, tinham sido apontadas irregularidades legais, administrativas, financeiras e fiscais na actividade da empresa, bem como a ausência de estruturas técnicas adequadas à dimensão da sua actuação. O Governo determinou então uma intervenção estatal transitória na empresa, com vista à gestão do património disponível, à redução dos prejuízos económicos e urbanísticos e à regularização possível das relações entre proprietários rústicos, loteador e compradores.

Intervenção estatal e processos administrativos A intervenção estatal na empresa António Xavier de Lima ocorreu no contexto político e económico posterior à Revolução de 25 de Abril de 1974, quando o Estado português adoptou várias medidas de controlo e intervenção sobre empresas consideradas relevantes para o interesse público ou associadas a situações de incumprimento económico e social. Em junho de 1975, o Conselho de Ministros confirmou e alargou uma resolução anterior, de 19 de fevereiro do mesmo ano, determinando o congelamento de contas bancárias e a proibição de alienação ou oneração de bens móveis ou imóveis de António Xavier de Lima, da sua mulher e de sociedades ou pessoas ligadas à actividade empresarial. A resolução nomeou ainda uma comissão administrativa para gerir a empresa, composta por representantes do Governo e por outros elementos designados no âmbito da intervenção. A intervenção prolongou-se nos anos seguintes. Em 1978 e 1979 foram publicados diplomas que prorrogaram prazos associados ao programa de actividades e à cessação da intervenção do Estado na empresa. Em 1980, a Resolução n.o 98/80 prorrogou novamente a manutenção do regime de intervenção do Estado na empresa António Xavier de Lima.

Vitória de Setúbal António Xavier de Lima foi presidente do Vitória Futebol Clube em 1973 e 1974. O seu mandato coincidiu com o final da chamada “década de ouro” do clube sadino, período em que o Vitória obteve algumas das melhores classificações da sua história no campeonato português e teve prestações relevantes nas competições europeias. Em 1974, o treinador José Maria Pedroto deixou o Vitória de Setúbal na sequência de um conflito com Xavier de Lima. Após a sua morte, Octávio Machado, antigo jogador do Vitória de Setúbal, recordou Xavier de Lima como o presidente responsável pela saída de Pedroto de Setúbal para o Boavista Futebol Clube em 1974, descrevendo-o como um dirigente de uma época em que muitos dirigentes suportavam financeiramente o protagonismo que tinham nos clubes.

Coudelaria e actividade equestre Em 1962, Xavier de Lima fundou a Coudelaria Xavier Lima, dedicada à criação de cavalos lusitanos. A paixão pelos cavalos foi uma das dimensões mais conhecidas da sua vida para além da actividade empresarial e desportiva. A sua ligação à actividade rural e cinegética aparece em várias portarias publicadas em Diário da República, relacionadas com zonas de caça turística concessionadas a António Xavier de Lima ou à sociedade António Xavier de Lima - Empreendimentos Imobiliários e Turísticos, S.A. Entre estas contam-se a zona de caça turística da Quinta da Comenda, em Setúbal, e a zona de caça turística da Herdade do Monte Novo do Sul, em Alcácer do Sal.

Propriedades e património A actividade imobiliária e fundiária de Xavier de Lima deixou marcas em vários pontos da Península de Setúbal e do Alentejo. Algumas propriedades associadas ao seu nome tornaram-se conhecidas pelo seu valor patrimonial ou pelo seu estado posterior de abandono. Na década de 1980, Xavier de Lima adquiriu a Quinta da Comenda, na Serra da Arrábida, em Setúbal, propriedade onde se situa o Palácio da Comenda. Segundo o jornal regional Setúbal Mais, a quinta foi comprada pelo construtor nos anos 80 e, depois da sua morte, ficou ao abandono e foi alvo de vandalismo e furto de painéis de azulejos. Xavier de Lima é também referido em fontes relativas ao chamado Palácio do Rei do Lixo, em Coina, no Barreiro, também conhecido como Torre de Coina ou Torre do Inferno. O Sistema de Informação para o Património Arquitectónico refere que o imóvel foi adquirido por Xavier de Lima, conhecido urbanizador da margem sul. A compra ocorreu na década de 1970, tendo Xavier de Lima anunciado a intenção de transformar o edifício numa pousada com 85 quartos; um incêndio em 1988 terá inviabilizado o projecto.

Litígios e controvérsias A actividade de António Xavier de Lima esteve associada a diversas controvérsias urbanísticas, administrativas e judiciais. A mais relevante, pelo seu alcance público, foi a intervenção estatal na empresa após 1975, relacionada com irregularidades em loteamentos e com prejuízos urbanísticos e económicos apontados pelo Governo português. Em 2006, a sociedade Setúbal Polis apresentou queixa-crime contra António Xavier de Lima, na sequência de um incidente relacionado com obras do Parque Urbano de Albarquel. Dois homens, um deles armado com uma espingarda, terão tentado impedir a continuação dos trabalhos numa parcela associada a uma expropriação de terreno pertencente ao empresário. A Setúbal Polis declarou que tinha tentado negociar a compra da parcela e que, sem resposta do empresário, avançara para a expropriação após declaração de utilidade pública.

Morte e legado Morreu no início de fevereiro de 2009, aos 83 anos, em casa, devido a uma falha do pacemaker. Foi sepultado no cemitério de Vila Nogueira de Azeitão, em Setúbal, numa cerimónia fúnebre que contou com várias centenas de pessoas, incluindo representantes de corporações de bombeiros e figuras ligadas ao Vitória de Setúbal. Na cobertura da sua morte, o Correio da Manhã destacou o papel de Xavier de Lima como benemérito, em particular junto de corporações de bombeiros. Na cerimónia fúnebre estiveram presentes várias corporações, tendo o presidente dos Bombeiros Voluntários de Águas de Moura afirmado o carácter benemérito de Xavier de Lima, referindo uma doação de 150 mil euros para o novo quartel daquela corporação, previsto para inauguração em 2009. O comandante dos Bombeiros Voluntários de Cacilhas esteve presente na cerimónia em representação dos bombeiros portugueses, que tinham atribuído a Xavier de Lima o crachá de ouro, a mais alta condecoração da instituição.==Referências==