Em 2026 o campo progressista brasileiro tenta dialogar com um eleitor ainda mais conservador do que já era nas últimas eleições para Presidente. O resultado do primeiro turno para o Congresso Nacional confirma o fenômeno do aumento do conservadorismo entre a população brasileira captado pela pesquisa anual “Índice de Conservadorismo e Costumes”, realizada pelo Instituto Ipsos (https://www.ipsos.com/pt-br). O mais intrigante é que o conservadorismo tenha crescido durante um governo do centro-esquerda.Fundado há 50 anos na França, o Ipsos realiza pesquisas em dezenas de países analisando mercados tendências de comportamento. Para avaliar o grau de conservadorismo de uma população, o instituto acompanha a opinião pública sobre assuntos desde o casamento entre homossexuais e aborto até porte de armas e pena de morte. Vale a pena verificar em quais desses temas o eleitor da Ilha da Vera Cruz engatou a marcha ré na sua visão de mundo e sociedade. A pesquisa cruzou ainda a analise os indicadores por região, gênero, raça, idade, religião e classe social. Mais do que revelar aos marketeiros de produtos se o brasileiro é um consumidor careta ou descolado, o Índice de Conservadorismo oferece material farto para os partidos progressistas localizarem, por exemplo, os pontos de sustentação do clã Bolsonaro, mesmo após o desastre da gestão do seu patriarca e apesar dos avanços promovidos pelo atual governo Lula, que tirou o país do atoleiro socioeconômico em que se encontrava.Uma primeira constatação é que, ao contrário do que afirma a extrema direita, o brasileiro continua não gostando de andar armado. Apenas um terço da população é a favor do porte de armas. Por outro lado, em relação ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, a sociedade parece ter estabilizado seu preconceito em torno de expressivos 40% contrários a uniões homoafetivas. Quanto ao aborto, o indicador também cristalizou por volta dos preocupantes 75% que se declaram contra a interrupção voluntária da gravidez. Esses dois últimos números demonstram uma suscetibilidade do eleitor à influência religiosa e tradicional. Contudo, essa estabilidade dos índices de conservadorismo ocorre em assuntos de cunho cultural, que decorrem de valores e condutas pessoais, que podem ser corrigidos com educação no longo prazo.Acontece que dois outros índices avaliados na pesquisa mostram crescimento importante desde 2022 e dizem respeito a uma questão concreta de curto prazo, de responsabilidade do Estado – a segurança pública. O primeiro é a defesa da pena de morte, que saltou de 31% da população em 2010 para 42% em 2022 e disparou para 52% em 2026, refletindo a aflição do eleitor com a criminalidade no dia a dia. O segundo é o percentual a favor da prisão perpétua, com motivação semelhante à aceitação da pena de morte – inconformismo com a sensação de insegurança. Pelas mesmas razões, o indicador referente à redução da maioridade penal segue elevado, em torno dos 70% favoráveis.Ou seja, o conservadorismo brasileiro tem componentes culturais e religiosos, mas também se alimenta da vida cotidiana real que depende das autoridades e instituições. De modo geral, o brasileiro mais conservador tem entre 25 e 44 anos, é evangélico, com ensino médio, das classes A e B, nas regiões Norte e Centro Oeste. Fica a dica, problemas concretos podem despertar o conservadorismo do eleitor. A insegurança é apenas um dos exemplos.Felipe Sampaio: Dirigiu a área de estatísticas no Ministério da Justiça; chefiou a assessoria do Ministro da Defesa; foi diretor de programas do Ministério do Empreendedorismo; ex-secretário executivo de Segurança Urbana do Recife; cofundador do Centro Soberania e Clima; com atuação em grandes empresas, organismos internacionais e terceiro setor.











